Flávio Bolsonaro fala com jornalistas em 19 de maio, em meio a relatos de ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, que se encontra detido. (Foto: Reuters/Mateus Bonomi)

Repórteres do Intercept Brasil enfrentam assédio e ameaças por cobertura sobre família Bolsonaro

São Paulo, 29 de maio de 2026—O Comitê para a Proteção dos Jornalistas condena as denúncias de assédio contra jornalistas do Intercept Brasil relacionadas à série de reportagens sobre as conexões do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e de seus filhos, Flávio e Eduardo Bolsonaro, com o banqueiro brasileiro Daniel Vorcaro, que se encontra preso.

“Silenciar reportagens críticas — e tentar transformar os jornalistas responsáveis por elas em bodes expiatórios — não substitui a prestação de contas”, afirmou Cristina Zahar, coordenadora do programa do CPJ para a América Latina. “A conduta da família Bolsonaro, cujos membros são autoridades ou ex-autoridades públicas, é uma questão de interesse público, e eles devem prestar contas.”

O deputado federal Hélio Lopes — aliado do senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro — solicitou ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral a abertura de investigação criminal sobre a reportagem do Intercept Brasil, que informou ao CPJ não ter sido notificado sobre nenhum desdobramento do caso.

Steven Monacelli, um repórter freelancer de Dallas, afirmou também ter sofrido ameaças e assédio online depois de tentar contato com Eduardo Bolsonaro, que segundo relatos atualmente reside no Texas. Depois que Monacelli tocou a campainha da casa dele, Bolsonaro ligou para a polícia de Southlake e gravou um vídeo para as redes sociais no qual afirmou que “as pessoas no Texas têm armas de fogo em casa”.

“Cerca de duas horas [depois de eu ter tocado a campainha da casa de Bolsonaro], vi meu rosto estampado nas redes sociais da direita brasileira”, disse Monacelli ao CPJ.

O CPJ entrou em contato com a polícia de Southlake, que declinou comentar sobre o incidente.

“Houve uma tentativa coordenada para descredibilizar a investigação, com acusações infundadas, associação falsa do trabalho jornalístico ao crime organizado, distorções sobre as reportagens e mobilização de perfis e páginas bolsonaristas para espalhar desinformação”,  disse Andrew Fishman, presidente do Intercept Brasil, ao CPJ. 

Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e a Federação Nacional dos Jornalistas publicaram cartas repudiando o assédio de Flávio Bolsonaro ao Intercept Brasil.