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Jornalista mexicano atacado pela polícia no estado de Guerrero

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Um ativista coloca um painel de fotos de jornalistas mortos no México durante uma manifestação contra o assassinato de jornalistas no México, fora do prédio da Promotoria Especial de Atenção aos Crimes contra a Liberdade de Expressão (FEADLE, sigla em espanhol) na Cidade do México, México, em 15 de junho de 2017. (Reuters/Edgard Garrido)

Cidade do México, 10 de janeiro de 2018 - Autoridades do estado mexicano de Guerrero devem investigar rigorosa e seriamente a alegada violência policial contra um repórter na cidade de La Concepción em sete de janeiro, disse hoje o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). De acordo com declarações que cinco jornalistas deram à mídia local após a suposta violência, policiais estaduais atacaram um jornalista que cobria os violentos confrontos entre policiais e soldados e membros de uma autodenominada força policial comunitária.

O fotógrafo Bernandino Hernández, que contribui para The Associated Press e a agência de fotografia mexicana Cuartoscuro, disse ao CPJ em oito de janeiro que a polícia estadual o espancou depois que ele tirou fotos de oficiais do governo batendo em vários membros da força policial da comunidade, incluindo alguns que estavam desarmados.

O fotógrafo disse que, embora se identificasse como um jornalista, os policiais gritaram que eles não se importavam com quem ele trabalhava e que "fariam ele desaparecer" se continuasse a tirar fotos.

"É tarefa da polícia proteger os jornalistas, mas temos visto muitos casos no México, onde a polícia é a culpada pela violência contra jornalistas", disse em Nova York Alexandra Ellerbeck, Coordenadora do Programa da América do Norte do CPJ. "As autoridades devem investigar este ataque e processar qualquer policial responsável".

Roberto Álvarez Heredia, porta-voz do grupo de Coordenação de Guerrero, que supervisiona todos os organismos de segurança pública locais e federais no estado, declarou hoje ao CPJ que as autoridades estão investigando a agressão.

"O governo de Guerrero lamenta o que aconteceu e tem o compromisso de investigar adequadamente o caso para impedir que aconteça novamente", declarou Álvarez Heredia acrescentando que ainda não podia fornecer mais detalhes sobre os policiais supostamente envolvidos.

O CPJ não conseguiu se comunicar com a Secretaria de Defesa Nacional na Cidade do México nem com a Polícia da Comunidade em La Concepción para comentar o assunto.

Os repórteres documentaram as tentativas contínuas das autoridades governamentais para desarmar a autodenominada força policial da comunidade e prender um franco líder da comunidade local, de acordo com os jornalistas ouvidos pelo CPJ e informações da imprensa. A polícia da comunidade se recusou a entregar suas armas, provocando um tiroteio por volta das 11h30 de sete de janeiro, de acordo com o noticiário. Pelo menos três integrantes da polícia comunitária morreram no confronto, segundo as informações publicadas.

Durante o tiroteio, a Polícia Estadual começou a atacar os jornalistas, declararam ao CPJ três repórteres presentes no local.

Hernández declarou ao CPJ que precisou ser hospitalizado por conta dos socos e pontapés desferidos pelos agentes policiais. O fotojornalista afirmou que os policiais quebraram suas câmeras, levaram cartões de memória que continham fotos de supostos atos de abuso que haviam cometido durante os protestos, e roubaram o seu dinheiro.

Hernández informou que durante o ataque perdeu os sentidos por vários minutos. Os colegas do repórter fotográfico o arrastaram do local e o levaram de carro para Chilpancingo, capital do estado de Guerrero, onde ele denunciou o ataque às autoridades estaduais. Depois foi levado a um hospital de Acapulco para receber o tratamento médico necessário, completou.

O repórter declarou ao CPJ que havia sofrido uma concussão cerebral e hematomas nas pernas, tronco e cabeça, mas sem lesões cerebrais. Em nove de janeiro, enquanto conversava com o CPJ, teve dificuldade de se lembrar inteiramente de todos os detalhes do incidente.

O titular da Secretaria de Saúde de Guerrero, Carlos de la Peña Pintos, declarou ao CPJ em nove de janeiro, que as autoridades estaduais de Guerrero assumiram as despesas médicas de Hernández.

Francisco Robles, colaborador do jornal da Cidade do México Reforma e da agência France-Press, declarou ao CPJ em entrevista telefônica realizada em nove de janeiro que havia visto quando arrastaram Hernández do local onde havia sido atacado, embora não tenha presenciado o ataque em si.

Outro jornalista que estava presente no tiroteio, Sérgio Robles do site noticioso Quadratin, disse ao CPJ em nove de janeiro que ele e outros repórteres que lá estavam também haviam sofrido algum grau de abuso verbal e físico de menor gravidade, como empurrões dos agentes policiais.

Sérgio Robles e Francisco Robles contaram ao CPJ que reconheceram alguns dos agentes da polícia estadual por tê-los visto em coberturas anteriores.

Hernández disse temer por sua segurança, porque também havia reconhecido alguns dos agentes da policia estadual por tê-los vistos em coberturas noticiosas anteriores.

O jornalista informou que as autoridades haviam designado um agente da polícia federal para vigiar o hospital onde recebia tratamento.

Em declarações fornecidas ao CPJ em nove de janeiro, Patricia Colchero, titular do Mecanismo Federal para a Proteção de Pessoas Defensoras de Direitos Humanos e Jornalistas, confirmou que as autoridades mexicanas haviam assignado um agente da polícia federal para vigiar temporariamente a residência de Hernández. Outro porta-voz do organismo, que pediu anonimato por questões de segurança, disse que eles têm a intenção de falar com Hernández o mais rápido possível, embora o encontro ainda não tenha se realizado.

Em nove de janeiro, Ricardo Sánchez Pérez del Pozo, Promotor Especial para a Atenção aos Crimes contra a Liberdade de Expressão, declarou ao CPJ que o organismo tinha conhecimento do incidente, mas que Hernández não havia se comunicado com as autoridades federais.

O México é um dos países mais perigosos no hemisfério ocidental para exercer o jornalismo. Segundo os dados do CPJ, em 2017 pelo menos seis jornalistas foram assassinados no país em retaliação direta por seu exercício profissional. O CPJ investiga outros três casos de homicídio de jornalistas para determinar o motivo.

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