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Jornalista Patrícia Campos Mello enfrenta campanha de assédio online

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Um jornalista da equipe de verificação de fatos da AFP trabalha no escritório da agência France-Presse, no Rio de Janeiro, Brasil, em 27 de setembro de 2018. Em 11 de fevereiro de 2020, a jornalista brasileira Patrícia Campos Mello enfrentou uma campanha de assédio online após alegações feitas durante uma audiência no Congresso sobre notícias falsas. (AFP / Maruo Pimentel)

Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2020 - O Comitê para a Proteção dos Jornalistas(CPJ) condenou hoje a campanha de assédio online contra a jornalista brasileira Patrícia Campos Mello.

Ontem, durante uma audiência no Congresso sobre notícias falsas em Brasília, capital, Hans River Rio do Nascimento, ex-funcionário de uma empresa de marketing digital, fez uma declaração atacando Campos Mello, sugerindo que ela mentiu em suas reportagens e a acusou de estar disposta a trocar sexo por informação, de acordo com um vídeo de seu testemunho.

Campos Mello é repórter do Folha de S.Paulo, o maior jornal diário do Brasil, e recebeu o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa 2019 do CPJ.

Após o testemunho de Nascimento, Campos Mello recebeu centenas de mensagens de assédio nas mídias sociais, e vários políticos, incluindo Eduardo Bolsonaro – deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro - compartilharam e repetiram as alegações de Nascimento no Twitter, disse ela ao CPJ por telefone.

A Comissão Parlamentar de Inquérito sobre Notícias Falsas, também conhecida como ‘CPMI das Fake News’, foi criada em setembro de 2019 com o objetivo de investigar assédio online e notícias falsas nas mídias sociais, de acordo com o site oficial.

"É profundamente irônico que uma audiência no Congresso para investigar as chamadas notícias falsas no Brasil tenha sido usada para iniciar uma campanha on-line que divulga falsas acusações e difamações contra uma jornalista", disse em Nova York Natalie Southwick, coordenadora do Programas das América Central e do Sul do CPJ. "Esse assédio direcionado mostra até que ponto alguns brasileiros estão dispostos a desacreditar repórteres investigativos como Patrícia Campos Mello, e como as repórteres enfrentam barreiras e ameaças adicionais ao seu trabalho".

Depois que a declaração de Nascimento foi publicada, centenas de usuários do Facebook e Twitter postaram memes com fotos e mensagens que macularam sua integridade e seu trabalho como jornalista, muitos deles com linguagem sexual, disse Campos Mello.

Ela também contou ao CPJ que não havia recebido nenhuma ameaça direta, mas que era "absurdo" que tivesse que se "defender de tais mentiras".

A declaração de Nascimento fez referência a uma reportagem de Campos Mello e Artur Rodrigues publicado pela Folha de S.Paulo em 2 de dezembro de 2018, que alegava que um grupo de empresas de marketing digital, incluindo uma onde Nascimento trabalhava, havia roubado a identidade de idosos brasileiros para difundir propagandas políticas contra o Partido dos Trabalhadores por meio de mensagens de WhatsApp durante as eleições presidenciais de 2018 no Brasil.

O deputado federal Bolsonaro, juntamente com outros dois deputados, Carlos Jordy e Filipe Barros, repetiram as acusações contra Campos Mello no Twitter e apoiaram a caracterização feita por Nascimento a respeito de seu jornalismo.

Em resposta ao testemunho e ao assédio, a Folha de S.Paulo publicou um artigo refutando cada uma das alegações de Nascimento.

Campos Mello recebeu constantes ameaças desde que reportou sobre as campanhas de mensagens pelo WhatsApp em 2018, que o CPJ e outras organizações condenaram publicamente na época.

O CPJ não conseguiu localizar Nascimento. O CPJ ligou para a empresa onde Nascimento trabalhava. O funcionário que atendeu disse que não havia ninguém disponível para comentar hoje e pediu que o CPJ retornasse o telefonema amanhã.

A equipe de Emergências do O CPJ publicou uma Nota de Segurança sobre proteção psicológica e assédio online.

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