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Polícia da Nicarágua invade organização de notícias independente, leva equipamentos e documentos

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Fotógrafo local faz um vídeo do escritório do jornalista Carlos Fernando Chamorro no dia seguinte à invasão pela polícia nacional em Manágua, na Nicarágua. (REUTERS/Oswaldo Rivas)

Bogotá, 14 de dezembro de 2018 - A polícia nicaraguense invadiu uma das poucas organizações independentes de notícias do país e retirou documentos, computadores e câmeras de TV, segundo o site de notícias Confidencial, que é um dos meios de comunicação afetados, e outras reportagens da imprensa.

A ofensiva da polícia teve como alvo o escritório do meio de imprensa privado Confidencial, de Manágua, e seus programas irmãos televisivos, "Esta Noche" e "Esta Semana". Carlos Fernando Chamorro, um dos mais proeminentes jornalistas independentes da Nicarágua, é o fundador e diretor de todas as três mídias informativas.

"Este ataque ao Confidencial é uma escalada significativa da campanha em curso para perseguir os repórteres e refrear as investigações sobre os abusos cometidos por forças do governo e paramilitares", disse Carlos Martinez de la Serna, diretor de Programas do CPJ, em Nova York. "O governo nicaraguense deve devolver os materiais apreendidos, o que poderia expor muitas vítimas que ajudaram a documentar a repressão, e interromper seus ataques à mídia independente."

Um vídeo postado no canal do YouTube da 100% Noticias, uma estação privada de TV a cabo e internet em Manágua, mostrava o escritório com computadores faltando, gavetas abertas, roupas e papéis espalhados por todo lado.

"Eles saquearam nosso escritório. Foi um ataque brutal contra a liberdade de imprensa e o setor privado", escreveu Chamorro no Twitter. Ele exigiu que a polícia devolvesse todos os documentos e equipamentos.

Wilfredo Miranda, repórter do Confidencial, disse ao CPJ em uma entrevista por telefone que o ataque ocorreu por volta das 23h00 de ontem, quando apenas dois seguranças estavam presentes. Ele disse que dezenas de policiais chegaram sem ordem judicial, confiscaram os celulares dos guardas de segurança, quebraram as fechaduras do escritório e encheram três caminhonetes com equipamentos e arquivos do jornalismo.

O ataque ocorreu em meio a uma repressão duradoura do governo contra os meios de comunicação independentes que têm criticado o regime cada vez mais autoritário do presidente Daniel Ortega. Os protestos contra o governo eclodiram em abril e, desde então, a polícia e os paramilitares pró-Ortega frequentemente visam jornalistas, de acordo com a pesquisa do CPJ. Um repórter foi morto na violência, enquanto outros foram espancados ou tiveram seus equipamentos roubados, de acordo com a pesquisa do CPJ.

Em um vídeo postado hoje no canal do YouTube do Confidencial, Chamorro disse que o ataque pode ter sido associado a uma campanha mais ampla para silenciar organizações não-governamentais que Ortega acusa de conspirar contra ele.

Esta semana, o congresso da Nicarágua, controlado pelo partido governista sandinista Frente de Libertação Nacional, rescindiu o status legal de várias organizações não-governamentais, incluindo o Centro de Investigação de Comunicações, ou CINCO. Chamorro é membro do conselho do CINCO, mas disse no vídeo que a organização não tem vínculo com o Confidencial ou seus programas de TV, que são empresas de capital fechado.

No vídeo, Chamorro disse que quando a polícia iniciou o ataque de ontem à noite, eles disseram inicialmente aos guardas de segurança que estavam respondendo a um possível ataque ao escritório do CINCO. Quando avisaram que o CINCO se localizava em outra parte da cidade, a polícia se retirou, mas retornou 30 minutos depois e iniciou o ataque, disse Chamorro.

"Eu culpo o comandante supremo da polícia, o ditador Daniel Ortega, por ter ordenado este ataque contra nosso escritório, nossos jornalistas e nosso público", disse Chamorro no vídeo. "Isso foi um assalto e roubo deliberado. Ortega transformou a polícia em delinquentes."

Nem a Polícia Nacional nem o escritório da vice-presidente Rosario Murillo, porta-voz oficial de imprensa do governo, responderam às ligações e e-mails do CPJ.

Chamorro disse que o Confidencial continuaria a publicar e que não haveria interrupção nos programas diários de TV "Esta Noche" nem no semanal "Esta Semana".

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