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O CPJ insta o presidente mexicano a pôr fim aos ataques contra a imprensa após o assassinato do jornalista Amado Ramírez Dillanes

9 de abril de 2007
Felipe Calderón Hinojosa
Presidente da República do México
Los Pinos
México, D.F., México
Por fax: 52- 55 - 52772376

Excelência,

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) escreve para expressar seu alarme após a execução do veterano jornalista Amado Ramírez Dillanes em Acapulco, em uma repetição de ataques fatais contra a imprensa que continua em um ritmo alarmante. Estamos profundamente preocupados com a condição da liberdade de imprensa no México e, por isso, instamos o governo federal a tomar ações rápidas e decisivas para pôr fim a esta onda de violência.

Ramírez, de 50 anos, correspondente da Televisa em Acapulco e apresentador do programa de notícias “Al Tanto” na estação local Radiorama, foi assassinado a tiros na principal praça da cidade na noite de sexta-feira. O CPJ está investigando se sua morte está diretamente relacionada ao seu desempenho profissional.

Após concluir seu noticiário, Ramírez deixou os escritórios da Radiorama às 19h30 e caminhou até seu automóvel, que estava estacionado próximo, segundo informou ao CPJ um colega que pediu para não ser identificado. Ramírez acabara de entrar em seu veículo quando um agressor não identificado disparou duas vezes de fora da janela do condutor, informou seu colega. Ferido em sua perna esquerda e no peito, o jornalista correu até o lobby de um hotel próximo. Seu agressor o seguiu e disparou em suas costas, ferindo-o fatalmente, informou a imprensa local.

Ramírez cobria informações sobre notícias gerais para a Televisa e “Al Tanto”, segundo seu colega. Em março, no entanto, havia apresentado pela Televisa uma investigação especial sobre o assassinato de policiais judiciários locais, relacionando o crime com narcotraficantes locais.

Antes do assassinato, segundo Misael Habada de los Santos, co-apresentador do programa na Radiorama, o jornalista havia recebido várias ameaças de morte em seu telefone celular. Ramírez não havia dado muita atenção às ameaças e havia se negado a denunciá-las à polícia local, informou Habana ao diário La Jornada.

As autoridades locais encontraram três cápsulas de balas calibre .38 no local do crime. As autoridades elaboraram um retrato falado do agressor baseado nos testemunhos recolhidos, informou a imprensa local. Investigadores estaduais ainda não especularam sobre o possível motivo. Fontes disseram ao CPJ que a Procuradoria Geral da República está cooperando com as autoridades locais na investigação do assassinato.

Desde que a guerra entre poderosos cartéis de drogas se intensificou, os jornalistas locais que noticiam sobre crime organizado e narcotráfico estão enfrentando graves riscos. Segundo as investigações do CPJ, seis jornalistas foram mortos em represália direta por seu trabalho desde 2000, enquanto continuamos investigando as circunstâncias que cercam outros 11 assassinatos desde então, incluindo o de Ramírez, para determinar se as mortes estão associadas com o trabalho dos repórteres. Três jornalistas desapareceram desde 2005. Dois deles cobriam a área policial.

Apesar de a batalha entre os cartéis ser particularmente severa nos estados do norte do país, a violência se estendeu a cada um dos estados mexicanos no último ano. As conseqüências foram devastadoras: dados da Procuradoria Geral da República revelam que somente em 2007 foram registrados 678 assassinatos relacionados com o crime organizado, segundo as informações da imprensa.

A violência e o medo têm exercido um efeito demolidor sobre a imprensa, já que jornalistas que informam sobre crime e narcotráfico têm, de forma crescente, recorrido à autocensura. Narcotráfico, criminalidade, corrupção e outros temas que afetam a vida diária da população não estão recebendo cobertura jornalística.

No início de 2006, ao criar uma procuradoria especial pra investigar crimes contra jornalistas, o governo mexicano reconheceu que a violência contra a imprensa era um problema nacional. Infelizmente, o sistema de justiça mexicano tem sido incapaz de encerrar este ciclo de violência e parece longe de resolver qualquer um dos recentes casos.

Enquanto trabalha para determinar quais são as suas prioridades durante o primeiro ano de governo, o instamos a fazer da proteção à imprensa e à liberdade de expressão uma marca da sua administração. Acreditamos que, através de ações comuns, seu governo pode ajudar a conter a onda de ataques contra a imprensa. Apesar de o direito à livre expressão estar garantido nos artigos 6 e 7 da Constituição mexicana, muitos jornalistas não podem exercer este direito por temor a represálias.

Neste clima de terror constante, torna-se crucial que todos os mexicanos possam buscar informação e expressar-se sem medo. A violência sem precedentes que afeta a imprensa está inibindo a possibilidade dos mexicanos de se comunicarem uns com os outros. Acreditamos que este seja um problema nacional, cuja resolução requer o envolvimento do governo federal. Os cidadãos do México necessitam de uma estrutura legal que proteja a liberdade de expressão. Além disso, o governo deve assumir a sua responsabilidade de proteger os jornalistas que se encontram sob ameaça.

Nós o exortamos a fazer da proteção à liberdade de expressão uma prioridade de sua administração ao apoiar uma legislação que transforme em crime federal a conspiração, através da violência ou de outros meios, de privar os mexicanos deste direito fundamental consagrado na Constituição federal.

Agradecemos sua atenção a este urgente assunto, e aguardamos sua resposta.
Atenciosamente,

Joel Simon, Diretor Executivo

Joel Simon
Diretor Executivo


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