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Síria e França, os países mais letais para a imprensa

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De 69 jornalistas mortos em virtude de seu trabalho em 2015, 40 por cento morreram nas mãos de grupos militantes islâmicos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. Mais de dois terços do total de mortos foram escolhidos para serem assassinados. Um relatório especial do CPJ por Elana Beiser

Os cartunistas Renald Luzier, à esquerda, e Patrick Pelloux em uma marcha de solidariedade em Paris por seus colegas mortos no ataque a revista satírica Charlie Hebdo. Em 2015, 28 jornalistas foram mortos por militantes islâmicos. (AFP / Eric Feferberg)

Publicado em 29 de dezembro de 2015

Grupos militantes islâmicos como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda foram responsáveis pela morte de 28 jornalistas em todo o mundo este ano - 40 por cento do total dos jornalistas mortos por realizarem seu trabalho - segundo a análise anual realizada pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). Nove dessas mortes ocorreram na França, que perdeu apenas para a Síria como o país mais perigoso para a imprensa em 2015.

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Em todo o mundo, 69 jornalistas foram mortos no cumprimento de seu dever profissional-incluindo aqueles mortos em represália por seu trabalho, bem como os que foram mortos em combate ou fogo cruzado ou em outras missões perigosas. O total, que inclui jornalistas assassinados entre 1 de Janeiro e 23 de Dezembro de 2015, é maior do que os 61 jornalistas mortos em 2014. O CPJ está investigando a morte de pelo menos mais 24 jornalistas durante o ano para determinar se elas estão relacionadas com o trabalho.

De forma diferente, nos últimos três anos as mortes ocorreram de forma disseminada entre os países. Pelo menos cinco jornalistas foram mortos em cada um dos países seguintes: Iraque, Brasil, Bangladesh, Sudão do Sul, e Iêmen.

Em 2012, 2013 e 2014, as mortes na Síria eram bem maiores do que no resto do mundo. A diminuição do número de mortes na Síria - onde 13 jornalistas foram assassinados em 2015 - reflete, em parte, o reduzido número de jornalistas trabalhando nesse país, depois de muitas das principais organizações de notícias internacionais decidirem não enviar pessoal para o país e dos jornalistas locais fugirem para o exílio.

Mas o menor número de mortes confirmadas na Síria também reflete a maior dificuldade que o CPJ tem para investigar os casos nesse país e em outros lugares devastados por conflitos, incluindo a Líbia, o Iêmen e o Iraque. O CPJ realizou uma missão de investigação ao Iraque este ano para investigar relatos de que até 35 jornalistas de Mosul teriam sido mortos, estariam desaparecidos ou seriam prisioneiros do Estado Islâmico. Em vista do controle exercido pelo grupo militante nas informações sobre a cidade, o CPJ poderia confirmar as mortes de apenas algumas pessoas. O CPJ tem recebido relatos, de toda a região, sobre dezenas de mortes de outros jornalistas, mas é incapaz de confirmar de forma independente se os indivíduos de fato morreram e, em caso afirmativo, se o trabalho jornalístico foi a razão. Vários desses jornalistas podem ser encontrados na lista de "desaparecidos" do CPJ.

Um oficial de segurança investiga o assassinato da jornalista somali Hindia Haji Mohamed, que foi morta por um carro-bomba em dezembro. (AFP / Mohamed Abdiwahab)

Aqueles que continuam exercendo a função de jornalistas nestes países devastados por conflitos são frequentemente afiliados a grupos que participam do conflito, complicando ainda mais os esforços do CPJ para determinar as razões por trás de suas mortes.

A Al-Qaeda na Península Arábica reivindicou a responsabilidade pelo massacre que matou oito jornalistas da revista satírica Charlie Hebdo em Paris, em janeiro, e, em outubro, o Estado islâmico assassinou dois jornalistas sírios, Fares Hamadi e Ibrahim Abd al-Qader, que viviam no exílio na Turquia. Abd al-Qader foi um dos primeiros membros da Raqaa que Está Sendo Massacrada Silenciosamente, um grupo de jornalistas sírios homenageado em 2015 com o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa do CPJ.

Em Bangladesh, membros de uma filial da Al-Qaeda ou outro grupo extremista local, o Grupo Ansarullah Bangla, eram suspeitos de assassinar com facadas um editor e quatro blogueiros, incluindo o escritor bengali-norte-americano Avijit Roy, que estava participando de uma feira do livro quando foi morto. No Paquistão, o Talibã assumiu a responsabilidade pelos tiros que mataram Zaman Mehsud, presidente e secretário-geral da União Tribal dos Journalistas do Waziristão do Sul, membro da direção e repórter dos jornais de língua Urdu Ummat e Daily Nai Baat. E, na Somália, Hindia Haji Mohamed, uma jornalista que trabalha para emissoras estatais e viúva de outro jornalista assassinado, foi morta em dezembro, quando uma bomba explodiu em seu carro em um ataque reivindicado pelo grupo militante islâmico al-Shabaab.

Essas mortes ocorreram ao mesmo tempo em que governos ao redor do mundo mantêm presos pelo menos 110 jornalistas com base em acusações relacionadas a atividades contrárias ao Estado (de um total de199 presos), de acordo com o mais recente censo anual de prisão do CPJ, mostrando como a imprensa está sendo encurralada de um lado por terroristas e, por outro lado, pelas autoridades que pretendem combater o terror.

Um mural para Avijit Roy, em Dhaka, um dos quatro blogueiros assassinados por extremistas em Bangladesh este ano. (AP / A.M. Ahad)

No mundo todo, mais de dois terços dos jornalistas mortos em 2015 foram escolhidos para serem assassinados em represália por seu trabalho - percentual compatível com a média histórica, mas maior do que o CPJ registrou ao longo dos últimos cinco anos.

Cerca de um terço das mortes em todo o mundo foram responsabilidade de grupos criminosos, funcionários do governo ou residentes locais - na maioria dos casos, traficantes de drogas ou autoridades locais suspeitas de estarem em conluio com o crime organizado. Entre estas mortes, inclui-se a do brasileiro Gleydson Carvalho, que foi morto a tiros por dois homens enquanto estava apresentando seu programa de rádio à tarde, no qual muitas vezes criticava a polícia e os políticos locais por corrupção e prática de atos ilegais. O Brasil, com seis assassinatos, registrou o maior número de mortes desde que o CPJ começou a manter registros detalhados em 1992. Embora o nível de violência não tenha precedente, as autoridades judiciais brasileiras têm feito progressos na luta contra a impunidade, com seis condenações em casos de homicídio nos últimos dois anos.

O Sudão do Sul, o mais novo país do mundo, aparece pela primeira vez no banco de dados do CPJ de jornalistas mortos quando homens armados não identificados emboscaram um comboio oficial no estado de Bahr al Ghazal Ocidental, resultando na morte de cinco jornalistas que viajavam com um funcionário do condado. O motivo do ataque e seus autores são desconhecidos, com os funcionários apontando o dedo para vários partidos, incluindo os seguidores do ex-vice-presidente Riek Machar, cuja luta pelo poder com o presidente Salva Kiir desencadeou a guerra civil em 2013. Os assassinatos colocaram o Sudão do Sul no Índice de Impunidade do CPJ, que destaca os países onde jornalistas são assassinados e seus homicidas permanecem em liberdade

Além do Sudão do Sul, Polônia e Gana apareceram no banco de dados de assassinatos do CPJ pela primeira vez. Na Polónia, Łukasz Masiak, fundador e editor de um site de notícias que fazia cobertura sobre crime provincial, drogas e poluição, foi mortalmente agredido em um boliche depois de dizer a seus colegas que temia por sua vida. Em Gana, George Abanga, um repórter de rádio, foi morto a tiro à queima-roupa em seu caminho de volta após cobrir uma disputa entre os produtores de cacau.

Algumas outras tendências que emergiram da pesquisa do CPJ:

  • Dezessete jornalistas em todo o mundo foram mortos em combate ou fogo cruzado. Cinco foram mortos em uma missão perigosa.
  • Pelo menos 28 das 47 vítimas de assassinato tinham recebido ameaças antes de serem mortas.
  • Pela primeira vez desde 2007, o CPJ não documentou um único jornalista morto em relação direta com o trabalho nas Filipinas. No entanto, pelo menos sete jornalistas foram mortos em circunstâncias pouco claras, e o CPJ continua investigando se estes casos não tiveram algum motivo relacionado com o trabalho.
  • Reportar para rádio e TV foi o trabalho mais perigoso, com 25 mortos. Vinte e nove vítimas trabalhavam online.
  • A pauta mais comum coberta pelas vítimas era política, seguida pela guerra e por direitos humanos.
A presidente do Brasil, Dilma Rousseff é cercada por jornalistas. As autoridades brasileiras fizeram progressos na luta contra a impunidade com várias condenações recentes, mas seis jornalistas foram assassinados em 2015, um número sem precedentes. (AFP / Wenderson Araujo)

O CPJ começou a compilar registros detalhados sobre todas as mortes de jornalistas em 1992. Membros da equipe do CPJ investigam de forma independente e verificam as circunstâncias por trás de cada morte. O CPJ considera um caso somente quando sua equipe está razoavelmente convencida de que um jornalista foi morto em represália direta por seu trabalho; no fogo cruzado durante combates; ou durante a realização de uma tarefa perigosa.

Se os motivos de um assassinato não são claros, mas é possível que um jornalista tenha morrido em virtude de seu trabalho, o CPJ classifica o caso como "não confirmado" e continua a investigar. A lista do CPJ não inclui jornalistas que morreram por conta de doenças ou foram mortos em acidentes de carro ou avião a menos que o acidente tenha sido causado por uma ação hostil. Outras organizações de imprensa utilizando critérios diferentes mencionam um número de mortes diverso do CPJ.

O banco de dados de jornalistas mortos do CPJ por conta de seu trabalho em 2015 inclui relatórios sobre cada vítima e uma análise estatística. O CPJ também mantém um banco de dados de todos os jornalistas assassinados desde 1992.

Elana Beiser é diretora-editorial do Comitê para a Proteção dos Jornalistas

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