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Governo nicaraguense lança campanha de assédio contra o Canal 10

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Manifestantes antigovernamentais participam de uma manifestação contra o governo do presidente da Nicarágua Daniel Ortega em Manágua, Nicarágua, em 15 de agosto de 2018. Na semana seguinte, o governo nicaraguense lançou uma campanha de perseguição contra a emissora independente Canal 10. (Reuters/Oswaldo Rivas)

Bogotá, Colômbia, 24 de agosto de 2018 - O governo nicaraguense lançou uma campanha de intimidação contra a estação de TV independente Canal 10, que criticou o presidente Daniel Ortega por ordenar ataques letais contra manifestantes antigovernamentais nos últimos quatro meses, segundo as informações da imprensa.

Na quarta-feira, a Unidade de Análise Financeira do governo disse em um comunicado vagamente redigido que está investigando o gerente geral do Canal 10, Carlos Pastora, por suposta lavagem de dinheiro. Não forneceu detalhes.

Pastora, que tem dupla nacionalidade nicaraguense-hondurenha e administra também emissoras de televisão em Honduras e El Salvador, tentou deixar o país nesta semana, mas foi impedido por autoridades de imigração no aeroporto de Manágua. Ele então se refugiou na Embaixada de Honduras em Manágua, de acordo com as informações da imprensa.

Além disso, o diretor de notícias de uma estação de TV rival, governista, controlada pela família de Ortega, foi ao Canal 10 em 20 de agosto e tentou comandar seu noticiário. Antes de ser expulso do prédio, ele alegou falsamente que estava agindo de acordo com as instruções de Pastora, de acordo com o diretor de notícias do Canal 10, Mauricio Madrigal.

"A campanha contra o Canal 10 marca uma escalada nos contínuos ataques de Daniel Ortega à mídia independente, usando instituições governamentais para reprimir jornalistas críticos", disse o diretor de Programas do CPJ, Carlos Martinez de la Serna, em Nova York. "O governo de Daniel Ortega deve parar esta campanha de intimidação e permitir que os jornalistas realizem seu trabalho de fazer com que a administração preste contas."

Madrigal disse ao CPJ que a repressão à emissora é um esforço do governo de Ortega para prejudicar a reputação de Pastora e pressioná-lo a adotar uma posição editorial pró-governo nos principais noticiários do Canal 10. "Eles querem assumir nosso trabalho noticioso. Mas vamos continuar com a cobertura independente", disse Madrigal ao CPJ em entrevista por telefone.

Ele acrescentou que Pastora permanece na Embaixada hondurenha em Manágua. Em carta à Comissão Nacional de Direitos Humanos de Honduras, publicada na quinta-feira pela mídia nicaraguense, Pastora pediu "ajuda imediata", dizendo temer pela sua segurança e a de sua família. "Poderíamos ser assassinados", escreveu ele.

Os telefonemas do CPJ para o gabinete da vice-presidente Rosario Murillo, que é esposa de Ortega e lida com as questões apresentadas ao governo pela imprensa, não foram respondidos.

Sob Ortega, que retornou ao poder em 2007 após liderar o governo marxista sandinista na década de 1980, a maioria das organizações de notícias da Nicarágua apoiava o governo ou proporcionava uma cobertura relativamente benigna do regime cada vez mais autoritário de Ortega. Mas desde que os protestos contra o governo estouraram em abril, o Canal 10 uniu-se a um pequeno mas crescente número de meios de comunicação nicaraguenses que adotaram uma postura mais agressiva, de acordo com a pesquisa do CPJ.

O Canal 10, que pertence ao magnata de mídia mexicano Remigio Ángel González, é a única emissora de sinal aberto na Nicarágua com noticiário crítico ao governo, disse Madrigal ao CPJ. Ele forneceu uma cobertura constante dos protestos e da violenta repressão do governo às manifestações que mataram mais de 300 pessoas, incluindo um jornalista, segundo a Organização dos Estados Americanos.

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