DECLARAÇÕES, México

Polícia mexicana agride jornalistas que cobrem protestos

Também disponível em English, Español

A polícia espanca manifestante em Monclova, no estado mexicano de Coahuila, em protesto contra o aumento dos preços de combustíveis, em 5 de janeiro de 2017. (Fidencio Alonso / Zocalo de Monclova, via Reuters)

Cidade do México, 12 de janeiro de 2017 - A polícia mexicana deve investigar de forma rápida e confiável os relatos de que a polícia ameaçou e agrediu jornalistas que cobriam protestos na semana passada, e deve rapidamente responsabilizar judicialmente os agentes que agrediram jornalistas, como se verificou.

As polícias estadual, municipal e federal assediaram e agrediram jornalistas que cobriam a dispersão forçada dos manifestantes em protesto contra o aumento dos preços dos combustíveis nos estados de Coahuila e Baja Califórnia, no norte do México, de 5 a 7 de janeiro, contaram vários jornalistas ao CPJ.

"O governo mexicano deve assegurar que os jornalistas possam cobrir protestos e outros eventos de interesse público significativo sem medo de serem espancados ou assediados pela polícia", disse o coordenador do Programa do CPJ para as Américas, Carlos Lauría, de Washington. "As autoridades devem investigar os ataques contra jornalistas e penalizar os responsáveis".

Jornalistas mexicanos contaram ao CPJ que viram a polícia agredir pelo menos cinco jornalistas em um protesto em Coahuila, em 5 de janeiro, e que a polícia espancou, ameaçou ou deteve brevemente pelo menos 11 repórteres na Baixa Califórnia. O grupo de liberdade de imprensa Artigo 19 informou que a polícia agrediu ao menos oito repórteres em Coahuila, e pelo menos 12 jornalistas na Baja Califórnia. Ao menos dois repórteres na Baixa Califórnia disseram ao CPJ que sofreram lesões físicas duradouras.

Coahuila

Na manhã de 5 de janeiro, um grupo de manifestantes organizou uma concentração 'sit-in' em uma das principais avenidas da cidade de Monclova, no estado de Coahuila, para protestar contra a alta acentuada nos preços da gasolina, anunciada pelo governo federal em 1º de janeiro. Os manifestantes bloquearam o acesso a uma instalação de armazenagem da Petróleos Mexicanos (Pemex), a empresa estatal de petróleo. Centenas de policiais estaduais e membros do Grupo de Táticas de Armas Especiais de Monclova (GATEM), uma polícia de elite, receberam ordem de remover os manifestantes, de acordo com relatos da mídia.

"Eles foram muito agressivos", disse ao CPJ Norma Morín, repórter do jornal local La Voz de Monclova'. Ela estava cobrindo o protesto quando os manifestantes resistiram à tentativa policial de dispersá-los. "Eles atacaram tanto os manifestantes quanto os repórteres que estavam lá, e vi como pelo menos quatro de meus colegas foram feridos".

A própria Morín foi ferida. Ela disse ao CPJ que policiais tentaram levar sua câmera e o celular enquanto ela transmitia os eventos ao vivo via Facebook. Quando ela se recusou a entregar o equipamento, os policiais a algemaram, machucando seu ombro direito. Ela disse ao CPJ que foi detida por pouco tempo, mas que não conseguiu voltar ao trabalho por causa do ombro machucado.

Morín disse que a polícia estadual agrediu pelo menos quatro outros jornalistas. Uma delas, Erika González, do jornal local El Tiempo de Monclova, também está temporariamente incapacitada de voltar ao trabalho depois de ter sido espancada, disseram Morín e o Artigo 19. A polícia também deteve brevemente a jornalista do El Tiempo de Monclava, Guadalupe Pérez, e Ramón Garza, repórter do jornal El Zócalo. O CPJ não conseguiu contatar Garza ou Pérez.

Morín também contou que, apesar de nem todos trazerem crachás da imprensa no momento em que a polícia dispersou o protesto, os repórteres avisaram claramente à polícia que eram jornalistas, mas foram agredidos assim mesmo.

"Um representante da Procuradoria Geral do estado ouviu nosso depoimento depois, mas com uma atitude muito desdenhosa", disse Morín ao CPJ. "Ele basicamente colocou a culpa em nós por termos sido agredidos, dizendo que deveríamos ter usado crachás de imprensa para sermos mais facilmente identificados como repórteres."

A Procuradoria de Coahuila, a Secretaria de Segurança Pública do estado (que supervisiona a polícia estadual), a Comissão de Direitos Humanos do estado e as autoridades municipais de Monclova não responderam aos repetidos pedidos de comentários feitos pelo CPJ.

Baja Califórnia

Dois dias depois, houve confrontos entre manifestantes e policiais semelhantes àqueles de Coahuila, na cidade de Rosarito, ao sul de Tijuana, no estado da Baja Califórnia. Cerca de dez horas da manhã do dia 7 de janeiro, centenas de policiais federais, estaduais e municipais começaram a tentar dispersar um grupo de cerca de 300 manifestantes que bloqueavam o acesso a uma instalação da Pemex, segundo reportagens da mídia.

Repórteres presentes ao evento contaram ao CPJ que, como em Coahuila, os agentes da lei agiram agressivamente contra manifestantes e jornalistas.

"A atmosfera estava muito tensa desde o início", disse Hans-Máximo Musielik, fotojornalista freelancer alemão, ao CPJ. "Houve pelo menos três tentativas para desalojar os manifestantes, começando pela manhã e durando até a noite." Durante a última vez, os policiais tentaram me impedir de filmá-los enquanto prendiam um manifestante que eles haviam jogado ao chão.

Musielik contou que um policial o empurrou e disse para não filmar, mas que ele não sofreu outra violência física. Ele mostrou ao CPJ um vídeo de um incidente, no qual um agente identificado como pertencente à força policial do Estado pode ser visto ameaçando bater em outro repórter.

Mais cedo naquele dia, policiais federais, estaduais e municipais espancaram, ameaçaram ou detiveram brevemente 11 outros repórteres, segundo jornalistas entrevistados pelo CPJ.

Entre as vítimas estavam Laura Sánchez Ley e Luis Alonso Pérez, correspondentes em Tijuana para o jornal nacional El Universal e o site de notícias Animal Político respectivamente, bem como o fotógrafo Jesús Bustamante do jornal local Frontera e Jordi Lebrija, jornalista de vídeo freelance que contribui para a The Associated Press e a emissora de língua espanhola Telemundo.

Lebrija disse ao CPJ que a polícia o ameaçou na parte da manhã e que um policial do estado lhe deu um soco no estômago ao fazer uma segunda tentativa de dispersar os manifestantes. Lebrija mostrou ao CPJ uma foto dos hematomas na barriga.

As lesões sofridas por Sánchez e Alonso foram mais graves. Por volta do meio-dia de 7 de janeiro, a polícia federal agrediu o casal enquanto tentavam filmar um manifestante sendo detido. Dois policiais bateram em Sánchez, que sofreu ferimentos na cabeça, enquanto pelo menos outros oito empurraram seu marido para o chão, chutando e espancando, informou o El Universal. Sánchez disse ao CPJ que seu marido teve uma costela fissurada e uma vértebra deslocada, e atualmente está internado. Ela disse que ela sofreu traumatismo craniano e que os médicos lhe disseram que ela precisava fazer mais exames.

Sánchez também disse que viu a polícia pulverizar spray de pimenta diretamente nos olhos de Bustamante. O CPJ não pôde contatar Bustamante diretamente.

Todos os jornalistas entrevistados pelo CPJ disseram que os repórteres nos protestos se identificaram claramente como jornalistas.

O CPJ não conseguiu obter comentários da polícia federal ou das autoridades municipais de Rosarito, mas Adrián García Estrada, porta-voz da Secretaria de Segurança Pública do estado, que supervisiona a polícia estadual, disse ontem ao CPJ que um policial estadual suspeito de pulverizar spray de pimenta nos olhos de Jesús Bustamante está atualmente sob investigação interna.

"Se houve uso indevido da força, o policial será suspenso", disse Garcia Estrada. "Não recebemos outras queixas sobre policiais estaduais."

Publicado

Gostou deste artigo? Apóie nosso trabalho