6 Assuntos Civis e Distúrbios


Atribuições Perigosas: Mortes em Distúrbios Civis, 1992 -
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1992



De cenários civis a cenas de crime e revoltas, todos geram condições imprevisíveis e perigosas. Os jornalistas precisam estar atentos às medidas de autoproteção para evitar riscos físicos ou legais.

Cenas de Acidentes, Incêndio e Resgate

AFP A primeira responsabilidade de qualquer um que esteja entre os primeiros a responder, incluindo a polícia, operadores de ambulâncias, assim como jornalistas, é proteger-se observando a cena e tomando consciência dos perigos potenciais, como o trânsito, as linhas de eletricidade que tenham sido derrubadas, e o vazamento de combustível ou substâncias ou gases químicos perigosos. Como acontece em outras situações, o jornalista deve estar suficientemente perto para observar a cena sem pôr em perigo sua vida ou de outros, ou interferir com operações de segurança ou resgate. Os fotojornalistas deverão aplicar um critério semelhante, compreendendo que devem estar suficientemente perto para registrar os acontecimentos. As autoridades habitualmente estabelecem um cerco perimetral para manter os que observam incluindo os jornalistas, a certa distância; em geral você pode solicitar, mas não exigir, que ofereçam um lugar melhor para observar os fatos. Dito isso, as autoridades devem ser encorajadas a fornecer aos jornalistas um local de observação que permita uma clara visão das operações. Finalmente, os editores deverão debater questões de acesso com funcionários da polícia e de emergências de maior hierarquia de modo constante e desenvolver diretivas acordadas mutuamente para a cobertura informativa em cenários de emergência.

Cruzar as linhas policiais ou desobedecer a policia pode levar à prisão. Ser respeitoso tanto no tom como no comportamento costuma ser o melhor modo de proceder. Os jornalistas que cobrem cenas de emergência ou resgates devem sempre exibir de modo bem visível suas credenciais de imprensa.

Às vezes, surgem confrontos entre as autoridades e os jornalistas que cobrem uma cena. A repórter norte-americana Diane Bukowski foi declarada culpada de crimes que incluíam obstruir e pôr em perigo dois agentes da polícia estadual quando informava sobre as sequelas de um acidente fatal que envolveu um motociclista que era perseguido por um veículo da polícia estadual. As autoridades alegaram que Bukowski cruzou uma linha policial; Bukowski afirmou que não cruzou a linha e que estava tirando fotografias a certa distância de uma das vítimas.

Cenas de Crime e Terrorismo

As cenas de crimes violentos podem ser complicadas de cobrir. Novamente, a primeira regra nestes casos é a autoproteção. Durante um impasse em uma negociação por reféns, ou em algum outro cenário instável, tenha cuidado de não se expor a riscos de maiores distúrbios. Uma pergunta que vale responder é se os agressores podem ainda estar soltos no local. No caso de um ataque terrorista ou alguma outra ação pensada para atrair a atenção pública, tenha presente a possibilidade de que ocorram ataques posteriores. O CPJ documentou dezenas de casos nos quais jornalistas que cobriam uma explosão inicial perderam a vida quando explodiu uma segunda bomba. Se for possível um segundo ataque ou um bombardeio duplo, talvez seja melhor permanecer na periferia e entrevistar testemunhas que estão abandonando o local.

Testemunhas e outros sobreviventes de ocorrências violentas podem estar traumatizados. Compreenda que a cena de um crime talvez não seja o melhor nem o único momento para fazer perguntas.

Mostre claramente as credenciais de imprensa em uma cena de crime, incluindo credenciais emitidas pelo governo local se for possível. (Ver a seção sobre Credenciais de Imprensa no Capítulo 1). Evite os confrontos com autoridades; nestes momentos, ter algum vínculo com oficiais de patente superior da polícia é proveitoso. (Ver a seção sobre Preparação Básica no Capítulo 5). E evite contato com material que seja evidência potencial; não tire nenhum elemento da cena do crime.

As testemunhas e outros sobreviventes de ocorrências violentas podem estar agitados ou traumatizados. “Os jornalistas sempre buscam se aproximar dos sobreviventes, mas devem fazê-lo com sensibilidade, incluindo saber quando podem aproximar-se e quando não”, observa o Centro Dart de Jornalismo e Trauma em seu guia, “Tragédias e Jornalistas”. Acima de tudo, isto significa respeitar os desejos dos sobreviventes sobre se querem ou não ser entrevistados ou se querem que suas emoções sejam registradas; demonstrar este respeito pode fazer com que os jornalistas tenham mais acesso. Os policiais e as autoridades encarregadas do resgate também podem sofrer traumas. Compreenda que este talvez não seja o melhor momento para fazer perguntas aos sobreviventes ou às autoridades.

Notícias Envolvendo Propriedade Privada

Você não tem direito a entrar em uma propriedade privada sem autorização na busca de uma matéria jornalística. Os jornalistas podem gozar de acesso limitado à propriedade privada quando cobrem comícios ou concentrações políticas que foram publicamente anunciadas. Averigue antecipadamente que leis e regras relevantes se aplicam.

Os jornalistas nos Estados Unidos e em outros países do mundo não podem entrar em propriedade privada sem o consentimento do dono ou residente, mesmo se estiverem acompanhando autoridades policiais em resposta a uma situação. “Mesmo quando os repórteres conseguem o acesso sem serem detidos, podem ser presos por entrar em uma propriedade privada sem autorização e os donos da propriedade podem processá-los na justiça após o fato, solicitando o pagamento de danos e prejuízos pelo acesso ilegal ou invasão da privacidade”, observa em seu guia de campo o Comité de Repórteres para a Liberdade de Imprensa (RCFP, sigla em inglês).

Na maioria dos países, temos direito a entrar em uma propriedade privada quando está aberta ao público em geral, embora esse direito seja limitado quanto à possibilidade de registrar acontecimentos de modo eletrônico, em contraposição com simplesmente tomar notas a respeito. Os comícios ou concentrações políticas realizados em propriedade privada, que pode incluir espaços, campos, escolas públicas ou outras instalações governamentais locadas para tal, frequentemente tornam-se lugares polêmicos entre autoridades e jornalistas. Os tribunais frequentemente sustentam que os proprietários ou quem aluga espaços deste tipo (mesmo quando se trata de um espaço de propriedade pública como um parque ou escola) tem direito de negar aos jornalistas o uso de câmeras de vídeo ou gravadores de áudio, e de pedir que saiam das instalações caso se neguem a fazê-lo.

Os jornalistas que se negam a deixar o local podem ser presos por invasão em países como os Estados Unidos e outros. Alguns jornalistas alegam que não tiveram tempo suficiente para sair após receberem a ordem de abandonar o local. Em 2010, o editor do Alaska Dispatch, Tony Hopfinger, foi detido e algemado por um guarda de segurança privada após fazer perguntas a um candidato a senador norte-americano ao final de um comício realizado em uma escola pública alugada pela campanha. A polícia chegou logo depois, tirou as algemas e liberou Hopfinger, que não foi acusado de nenhum delito.

Os jornalistas devem estar preparados e ter cuidado quando informam sobre acontecimentos que ocorrem dentro ou nas proximidades de uma propriedade privada. Recomenda-se sempre exibir claramente as credenciais de imprensa quando fazem coberturas em propriedade privada.

Protestos e Distúrbios

AFP Os jornalistas que cobrem protestos e outros distúrbios civis violentos enfrentam riscos legais e físicos de todos os lados, frequentemente ao mesmo tempo. Ao redor de 100 jornalistas morreram quando cobriam manifestações de rua e outros distúrbios civis entre 1992 e 2011, segundo revela a pesquisa do CPJ. Em 2011, quase 40 por cento das baixas de jornalistas relacionadas ao exercício profissional ocorreu durante situações deste tipo, a proporção mais elevada jamais registrada pelo CPJ.

Um bom estado físico é importante ao cobrir situações que poderiam repentinamente tornar-se violentas; o jornalista cuja mobilidade está limitada deverá ponderar os riscos antecipadamente. Estar atento à localização é também essencial em todo momento e isto, em geral, significa encontrar um ponto de observação que permita ter uma visão tanto dos manifestantes como da polícia antidistúrbios ou de outras autoridades, sem permanecer entre as partes. Pesquise como estes acontecimentos ocorreram nos mesmos lugares no passado. Trace rotas de fuga com antecedência e considere trabalhar em equipe quando cobre situações potencialmente violentas. As equipes de fotógrafos e repórteres, operadores de som e cinegrafistas e equipes de produção permitem aos jornalistas cuidarem uns dos outros nestas situações.

Em muitos países, as organizações de imprensa contratam equipes de segurança para que acompanhem os jornalistas. A avalanche de ataques contra jornalistas durante a revolução no Egito em 2011 e suas consequências destacam as violentas situações que os jornalistas podem enfrentar durante momentos de descontentamento popular. Os jornalistas também devem conhecer quais são as leis e práticas caso as forças de segurança ou os manifestantes exijam verificar ou confiscar as fitas de vídeo ou outro material gravado.

A vestimenta deve ser escolhida com atenção, incluindo decidir se é conveniente chamar a atenção ou se misturar com as pessoas. A roupa deve ser folgada e feita de tecido natural, pois os materiais sintéticos podem pegar fogo e queimar com mais rapidez, observa a Federação Internacional de Jornalistas de Bruxelas. Também se aconselha a usar um bom calçado, com apoio apropriado e flexível, e solas antiderrapantes.

Trate de se manter afastado do que pode se tornar perigoso. Poderíamos pensar nos jornalistas como árbitros no campo de um jogo. O árbitro deve estar suficientemente perto para observar o jogo com precisão e, mesmo assim, deve tomar todas as precauções para evitar misturar-se na ação. Quando cobrir informações sobre protestos e distúrbios populares, evite ficar aprisionado entre grupos rivais ou terminar no meio de alguma multidão. “Caminhem de costas para os manifestantes”, recomenda o jornalista suíço Dominik Bärlocher do site J-Source pertencente ao Projeto Canadense de Jornalismo. “As pessoas que atiram pedras e outros objetos geralmente o fazem a partir do meio da multidão, onde podem se misturar a ela”.

Exibir as credenciais de imprensa ou mantê-las fora de vista (mas acessíveis para serem exibidas quando solicitado) é uma decisão importante para os repórteres que cobrem protestos. Em algumas circunstâncias, pode ser melhor parecer um civil qualquer e manter as credenciais de imprensa fora do campo visual, em um bolso fechado e rapidamente acessível, como sugere Bärlocher em J Source. Em qualquer dos dois casos, os jornalistas devem evitar usar roupa como lenços coloridos ou blusões azuis de gola alta, o que poderia confundi-los com manifestantes ou com as forças de segurança. Em situações nas quais há possibilidade de ser confundido com um manifestante, o jornalista deve exibir suas credenciais de imprensa. Para jornalistas de rádio e televisão, e para outros que usam equipes para registrar acontecimentos, quase sempre é melhor exibir uma credencial de imprensa plastificada.

Quando cobrir informações sobre protestos e distúrbios populares, evite ficar aprisionado entre grupos rivais ou terminar no meio de alguma multidão.

Nunca recolha nada atirado durante uma manifestação. O risco é que não apenas poderia tratar-se de um explosivo de fabricação caseira ou um dispositivo inflamável, como também, ao fazê-lo, você pode gerar suspeita na polícia que pode presumir que você também é um manifestante.

Considere que coisas levar quando cobre uma manifestação ou um acontecimento semelhante. Bärlocher recomenda uma mochila “com uma tira pelo menos cruzando o peito e... outra na cintura”. Para evitar que “batam contra você impedindo-o de se mover, especialmente quando corre”. Todo o conteúdo da mochila deverá ser prescindível, entre as coisas a levar se inclui água mineral (preferentemente em um bolso lateral e aberto), uma toalha e um kit de primeiros socorros. Tenha consciência, entretanto, que carregar uma mochila, como frequentemente fazem os manifestantes, poderia levar as forças de segurança a confundi-lo com eles.

Levar um limão ou outra fruta cítrica pode ser uma boa ideia, conforme sugerido pela Federação Internacional de Jornalistas. A fruta pode ser exprimida sobre uma área da pele afetada para neutralizar o efeito de produtos químicos que irritam a pele. Uma toalha úmida também pode ajudar a proteger o rosto dos efeitos de agentes externos como gás lacrimogênio ou coquetéis Molotov. Uma máscara contra gases, óculos para nadar, ou proteção ocular industrial também pode protegê-lo contra gases lacrimogênios ou gás de pimenta. (Evite usar lentes de contato se acha que poderão ser utilizados gás lacrimogênio ou de pimenta.) Coletes leves para blindagem do corpo confeccionados para deter punhaladas ou balas de borracha junto com bonés ou gorros recobertos de metal, podem ser recomendáveis em situações particularmente conturbadas. A Federação Internacional de Jornalistas recomenda que fotógrafos e cinegrafistas levem cartuchos e cartões de memória falsos para entregar caso os verdadeiros sejam exigidos.

Os jornalistas devem obedecer as ordens das forças de segurança, embora as autoridades em algumas ocasiões detenham jornalistas sem antes haver qualquer comunicação de ordem. Pelo menos quatro jornalistas estavam entre as centenas de detenções realizadas quando cobriam os protestos relacionados com a Convenção Republicana de 2008 em St. Paul, Minnesota. Os jornalistas foram presos sem advertência prévia quando a polícia tentava encurralar manifestantes e jornalistas que cobriam suas ações em um estacionamento cercado. Dias depois, a polícia prendeu dezenas de jornalistas junto com centenas de manifestantes após fechar a saída em ambos os lados de uma passagem elevada em uma rodovia.

Mantenha a calma caso seja preso. Contradizer o funcionário que o prendeu pode piorar a situação. Caso vá falar, faça todos os esforços possíveis para manter uma conduta profissional quando explicar que é um jornalista e está realizando uma reportagem. (Não tem importância as simpatias que possa ter pelos que estão no local; o que realmente importa é que os jornalistas não ajam como participantes, mas como observadores.) Caso as autoridades decidam seguir adiante com a detenção, cumpra as ordens e espere a oportunidade de apresentar seu caso com calma a uma autoridade superior.


Próximo Capítulo: 7. Desastres Naturais

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5. Crime Organizado e Corrupção

7. Desastres Naturais

 



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