O CPJ exorta Procurador Geral venezuelano a abandonar investigação contra diário

Prezado Sr Rodríguez,

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), organização independente e sem fins lucrativos que se dedica a defender a liberdade de imprensa em todo o mundo, está sumamente preocupado com a investigação que a Procuradoria abriu contra o diário de Caracas El Universal após a publicação de um editorial que criticava o Ministério Público e o Poder Judiciário.


A Procuradoria invocou disposições anacrônicas sobre o desacato ou vilipêndio, que penalizam expressões ofensivas dirigidas a funcionários públicos e instituições do Estado. O exortamos a abandonar tal investigação, que tem como fundamento normas que suprimem o direito democrático fundamental à liberdade de expressão.

Na edição de 25 de julho, El Universal publicou um editorial na primeira página intitulado "Justiça Ajoelhada", dizendo que o sistema penal havia se politizado, que havia perdido autonomia e que se caracterizava pela ineficiência. Como conseqüência, argumentava o editorial, estava ocorrendo uma deslegitimação do Ministério Público e dos tribunais.

Em 26 de julho, a Procuradoria emitiu um comunicado à imprensa onde rechaçava que o sistema de justiça estivesse politizado e acusava o El Universal, e os meios de comunicação venezuelanos em geral, de incorrer em práticas pouco éticas e manipular o tratamento da informação.

No dia seguinte, seu despacho anunciou que fora aberta uma investigação criminal para determinar se o conteúdo do editorial constituía um delito ou não. No editorial, segundo a Procuradoria, "se ofende e se expõe ao desprezo público e, supostamente, se vilipendia o Ministério Público e o Poder Judiciário".

Recordamos que existe um consenso cada vez maior entre os organismos internacionais no sentido de que os funcionários públicos devem estar sujeitos a uma maior fiscalização, e que estes não devem gozar de maior proteção que o restante da sociedade. Em 1994, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), com sede em Washington, D.C., publicou um informe que determinou que as leis de desacato são incompatíveis com o Artigo 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, ratificada pela Venezuela, porque reprimem a liberdade de expressão necessária para o devido funcionamento de uma sociedade democrática. O informe recomenda aos estados membros da Organização dos Estados Americanos revogar tais leis ou reformá-las com o objetivo de adequá-las aos instrumentos internacionais.

A Declaração de Princípios sobre Liberdade de Expressão da CIDH, aprovada em outubro de 2000, expressa que "os funcionários públicos estão sujeitos a um maior escrutínio por parte da sociedade. As leis que penalizam a expressão ofensiva dirigida a funcionários públicos, geralmente conhecidas como ‘leis de desacato', atentam contra a liberdade de expressão e o direito à informação". Ainda que a Declaração de Princípios da CIDH não seja um documento vinculante, constitui a interpretação da CIDH a respeito das normas internacionais vigentes em matéria de liberdade de expressão.

Além disso, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, com sede na Costa Rica, sustenta que as críticas a funcionários públicos devem gozar de "uma margem de abertura a um debate amplo a respeito de assuntos de interesse público", de acordo com a sentença de agosto de 2004 que revogou a condenação, por difamação, do jornalista costarriquenho Mauricio Herrera Ulloa. Recentemente, outros países das Américas, como Honduras e Guatemala, revogaram a figura do desacato do Código Penal ou suspenderam a vigência das normas sobre desacato.

Lamentavelmente, a Venezuela se alijou do consenso internacional. Em 15 de julho de 2003, o Tribunal Supremo de Justiça ratificou a figura do desacato no Código Penal. Pouco depois da sentença, Eduardo Bertoni, Relator Especial para a Liberdade de Expressão da CIDH, difundiu um comunicado onde lamentava a decisão e expressava que as normas sobre desacato eram incompatíveis com uma sociedade democrática. O CPJ, assim como outras organizações internacionais e venezuelanas, também criticaram a sentença.

Em 2 de dezembro de 2004, a Assembléia Nacional, controlada pelo governo, reformou 38 artigos do Código Penal venezuelano. Os artigos modificados ampliaram as categorias de funcionários governamentais – para que incluíssem, entre outros, o Procurador Geral – protegidos pelas normas sobre desacato. As normas sobre desacato modificadas começaram a vigorar em março de 2005.

Ainda que os meios de comunicação venezuelanos, até agora, tenham podido exercer amplamente a crítica às instituições do governo, a investigação criminal contra El Universal somente serve para intimidar os críticos do governo. As normas sobre desacato limitam o direito básico à liberdade de expressão em uma sociedade democrática. Nós o instamos a reconsiderar a decisão de abrir uma investigação criminal contra El Universal.

Desde já agradecemos pela atenção dispensada a este assunto e aguardamos uma resposta.

Sinceramente,



Ann Cooper
Diretora-executiva

2 de agosto de 2005, 12:00 PM ET |
 

Video: Lara Logan

Why CPJ matters Join Us

International Press
Freedom Awards

Save the date: Tuesday, November 24. CPJ will honor top global journalists at its 19th annual benefit. Christiane Amanpour hosts.

Anatomy of Injustice

Unsolved murders in Russia
Anatomy of Injustice

Pakistani reporters
face grave risks

CPJ’s Bob Dietz
examines the challenges on the CPJ Blog